sábado, 3 de julho de 2010
O porquê de tudo
Espera
Deslizou seus dedos mais uma vez pela lâmina fria do punhal, acariciou com ele o contorno de seu busto e pousou-o em seu pescoço. Ainda sentada na penteadeira, subiu os olhos ao espelho e analisou seu rosto uma última vez. Mas não, como podia ele a deixar sozinha? Não, ele não o faria, não esta noite. Pois ela estava bela como um anjo, ele com certeza viria admirá-la. Não importa em que mundo ele estivesse, daria um jeito de vir a este só para vê-la – homem nenhum deixaria uma moça de tanta beleza sozinha. Resolveu deixar o punhal de lado, devolvê-lo a gaveta... A espera pelo amado havia lhe dado alegria renovada. Sim, ele viria, agora ela tinha muita certeza. Chamou as irmãs ao redor da cama e disse a elas que prestassem atenção. Abriu portas então para um mundo de poesia e falava de paixão como nenhuma delas jamais ouvira ou lera. E no andar de seu discurso construíam-se amores infinitos, juras eternas e sentimentos que transpunham tempo e espaço. Falou de seu amor, morto na guerra, mas que a visitava em sonhos, pálido e ferido – disse que o via e o sentia, por pouco não o tocava. Chamaram-na louca. Ele estava morto, paixão tão grande assim não pode haver.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Sobre Clichês ou Seja Mais Maduro
Mas é exatamente sendo agora esse clichê descabido que eu me torno, de súbito, o não-clichê por excelência. O avesso do clichê, o menos clichê de todos. Assim como Descartes rebateu os céticos levando-os a suas últimas consequências, eu nego o clichê exagerando-o ele próprio. Elevo-o a discurso. Se duvidando de tudo eu chego a uma verdade indubitável, que é o próprio duvidar, adotando clichês ao máximo eu chego ao anti-clichê maiúsculo. É que hoje em dia foge-se dos clichês com uma ânsia inquisitória – ninguém mais fala em romance, ninguém mais canta “Ana Julia” ou pede o nᵒ1 no Mcdonalds. A circularidade dessa história nunca foi tão escancarada – evitar os clichês virou por si só a atitude mais batida. Discute-se tanto Truffaut quando na verdade o filme de que todos queriam falar é Avatar; resultado: nouvelle vague também virou clichê.
Pois então adiramos ao clichê, grudemos nele o quanto podemos. Admiti-los nega-os etimologicamente. Um clichê admitido como clichê é tão contra-corrente que deixa de ser clichê, mas daí todos admitem o clichê e fugir deles vira Cult de novo e assim ad infinitum... até que resolvamos negar o próprio clichê e o próprio cult, que dependem sempre e tanto da adesão dos outros, e encontremos melhores critérios para pautar nosso repertório.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Não, eu não sei rimar
e eu quero ver tudo com você antes de ir pra cama
as pessoas voltando pra casa
o sol que nasce e se põe em todo lugar
a vida acontecendo – é lindo
e eu quero assistir com você
não podemos perder nada
quero conhecer todas as cores
viajaremos os cinco continentes
e então você me prepara o jantar
esquece que a nossa janela não dá pro mar
enxerga tudo comigo agora, vem
me abraça bem forte que eu te teletransporto
é um convite para todos os pores-do-sol, não recuse
porque hoje eu quero ver tudo com você antes de ir pra cama
quero areia de todas as praias deixando minhas pegadas no hall
quero no meu cabelo o cheiro de cada canto do universo
quero poeira sideral no meu sapato
quero conhecer todas as cores
encaixa seu corpo no meu e aparata comigo, transcende comigo
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Cath
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Novo
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
"Meu pequeno grande coração"
“- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
- Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato”
Então, ao contrário de tudo que eu já fiz na minha vida, sempre exagerado e sempre estrondoso e sempre brilhante, a minha saída vai ser pelo canto do palco, sutil e bem quieta, imperceptível pra qualquer olhar que esteja deslumbrado com algum outro ponto bonito do cenário, como é a maioria dos olhares da minha geração. Como um elefante que vai morrer solitário eu me afasto também da minha manada, mas não para morrer – pelo contrário, muito pelo contrário, eu me afasto pra poder nascer, renascer em mim e em todos os meus defeitos. Me entender. E pra que esse processo se complete, é essencial que eu mude de lugar, que eu esteja um pouco longe. Não é egoísmo meu, nem nunca foi, porque no meu coração cabe o mundo e cabe tudo que eu já vivi; mas é que o amor ultimamente tem se escondido em algum lugar de mim que eu ainda não toquei, e desconfio mesmo que essr seja um pedido desesperado do meu corpo para que eu me conheça melhor. É essa minha meta, me procurar e me conhecer – e sendo esse meu único referencial, não há como se perder, todo caminho é caminho quando não nos prendemos a necessidade de chegar a um lugar exato.
E sobre o que eu deixei? Não quero vingança, já que o que mais me prejudicou esses anos todos foi meu próprio jeito de querer abraçar tudo ao mesmo tempo, mas foi dando passos maiores que a perna que eu vivi muita coisa inesquecível. A saudade vai dormir comigo por muito tempo, e isso me mata de medo, mas o medo sempre foi uma espécie de combustível alternativo para mim. Espero também que a minha forma de viver tenha inspirado alguém, que o meu hino de não ter vergonha tenha encorajado alguma pessoa a ser ela mesma. No entanto, se eu pudesse pedir uma coisa antes de ir embora, qualquer coisa, eu pediria para ser uma espécie de amuleto, e que então toda pessoa que já me tocou ou que venha a me tocar tenha sorte, muita sorte.